Ao chegar à aldeia, onde passei a maior parte de meus anos, todas as filosofias, metodologias, teorias, snobismos, exibicionismos e outras idiotices terminadas em -ismos caem por terra; apenas a alguns km da cidade e a sensação que se experimenta é de total liberdade: liberta-se-me a alma das preocupações que durante a semana se trabalho me “espartilham”, me fazem a todo o momento medir as palavras, as decisões e suas consequências! …Na aldeia, ao início de uma solarenga tarde de Outono, o ar que se respira cheira ao canto dos pássaros e os arbustos sabem a frutos selvagens; depois há rebanhos que passam, galinhas soltas pelos caminhos que dão acesso às velhas quintas onde ladram velhos cães de guarda! Esse caminhos que, depois de um Verão seco e implacável, receberam já as primeiras chuvas outonais as quais nesse solo gravaram o percurso, sem barreiras, que livremente tomaram como se os caminhos fossem o leito seco dos ribeiros! Tudo parece brilhar: as folhas das videiras, de um tom amarelado, parece terem sido banhadas no mais fino ouro e a erva consola-se a tomar os últimos banhos de sol antes da vinda de um rigoroso Inverno; desses Invernos chuvosos e frios em que o vento faz gemer de dor os tristes pinheiros e os pobres agricultores. Esses Invernos que trazem consigo tanta miséria! A chuva escorre pelas paredes de algumas velhas habitações e a humidade entranha-se nos velhos cobertores; só as lareiras acesas oferecem algum calor. A cozinha torna-se, então, o local onde a família se reúne, apesar do vento continuar teimosamente a entrar por qualquer pequena fresta que encontre, seja nas janelas ou nas portas e ainda por cima assobia triunfante! Que a vida na aldeia não é um paraíso, entendamo-nos! Também há preocupação: com as sementeiras, as colheitas, o gado, a falta de água em anos de seca, ou as inundações que destroem muros e até casas…mas há um não-sei-quê naquelas pessoas que, ao Domingo vestem o seu melhor fato para ir à missa, depois de uma semana de trabalho ao sol ou à chuva, que me dá uma sensação de paz interior e de intensa e profunda tranquilidade! Digamos que, para mim, ir à aldeia é poder enroscar-me de novo no colo de minha mãe sem medos, usufruindo do aconchego e do calor protector de seus fortes braços. Lá, consigo olhar o céu com a inocência de alguém que desconhece que algum dia alguém fez uma dissertação sobre a “teoria do caos”, ou que existe uma coisa chamada “download”, ou ainda que “ o poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente…” Lá, o céu é apenas o sítio onde os pássaros voam; pode sem um céu com sol ou com nuvens, com estrelas ou com lua cheia…Cá, na cidade, o céu…nem se dá por ele: faz parte do telhado longínquo dos prédios que distraidamente acolhem as pessoas que, também distraidamente dizem um - “Bom dia” mecânico e apressado enquanto distraidamente tomam a bica antes de ir para o emprego conduzindo o seu carro distraidamente porque têm a vaga sensação que esqueceram algo, mas não há tempo para voltar atrás pois o relógio de ponto não se distrai e está impaciente; ora…assim sendo, e é, quem se pode dar ao luxo de perder alguns segundos preciosos a olhar o céu??? O céu está no sítio do costume, pronto, é o que precisamos saber! Será?...
Publicado por whiteball em outubro 5, 2003 06:54 PM