Rússia/Reféns: Pais das crianças "iniciaram" assalto à escola -Fonte militar
Moscovo, 08 Set (Lusa) - O assalto à escola número um de Beslan, Ossétia do Norte, foi iniciado por uma "terceira força", declarou hoje o ex-presidente da Ingúchia, general Ruslan Auchev, que manteve negociações com os sequestradores.
"Homens armados que não obedeciam às ordens do comando militar russo decidiram libertar os reféns pelos seus próprios meios", disse Auchev em entrevista à Novaia Gazeta. Desse grupo de homens terão feito parte pais, irmãos e outros parentes das crianças sequestradas.
Segundo Auchev, um grupo do ministério das Situações de Emergência, por acordo prévio com os terroristas, foi buscar, numa viatura, os corpos de reféns fuzilados anteriormente.
Contou o general que o empresário Gutseriev, muito popular na Ingúchia, estava a conversar com os sequestradores pelo rádio quando se ouviu uma explosão no interior das instalações escolares.
"Uma mulher que conseguiu saltar da janela disse então que um dos sequestradores tinha mexido num fio por engano. As crianças precipitaram-se para as janelas. Ligámos para eles (terroristas), pedindo que não disparassem. Eles responderam-nos: +Nós não disparamos, vocês é que disparam".
Na versão do general, foi então dada a ordem "Não disparar! Cessar o fogo!", mas "lá estava uma +terceira força+, idiotas da resistência popular armados com Kalashnikovs que ninguém sabe como ali apareceram".
"Eles decidiram libertar as crianças pelos seus próprios meios e foram eles que dispararam contra a escola", relatou ainda, assinalando que as unidades anti-terror não dispararam e que também os sequestradores não abriram fogo.
"Nós e eles, pelo rádio - prosseguiu - estávamos a gritar uns aos outros +Quem dispara?+. Depois, ouvimos os que estavam dentro da escola a dizer: +Começou. Temos de explodir+. Eles pensaram que nós estávamos a assaltar (a escola). Mas só depois disso é que a ordem de assalto foi dada".
Auchev atribuiu aos disparos dos civis, a quem chamou "parvos", o "começo da confusão", em consequência da qual "os militares tiveram de intervir".
"Os sequestradores - disse - gritam-me por telefone: +Estamos a ser atacados!+. Nós respondemos: +Ninguém está a atacar-vos. Está ali o (grupo anti-terror) Alfa, estão todos (os seus elementos) imóveis!+. Mas eles diziam: +Estamos a ser atacados, vocês assaltam, nós fazemos explodir as bombas+".
Peritos militares em Moscovo convergem na opinião de que as vítimas foram inevitáveis, dado o carácter espontâneo do assalto, que se transformou num simples combate da rua.
"O assalto, pelos vistos, foi iniciado pelos polícias locais e por homens armados, entre os quais os pais das crianças sequestradas", escreve no diário Izvestia um responsável não identificado do Serviço Federal da Segurança (FSB) da Rússia, que esteve a comandar a operação.
"Nós, de facto, não tivemos outra opção que não fosse abrir fogo, quando a primeira bomba explodiu e quando os terroristas começaram a disparar sobre os reféns que tentavam fugir. O grupo Alfa apenas interveio depois disso, perdendo a sua vantagem principal, ou seja, a possibilidade de agir súbita e inesperadamente", adiantou.
O jornal Kommersant publica hoje recordações de ex-reféns.
Marina Kozireva, mãe de uma aluna do segundo ano, Diana, passou os três dias no ginásio e contou que os quase 1.100 reféns estavam sentados uns em cima dos outros, divertindo-se os sequestradores a ordenar que se levantassem e sentassem, para não adormecerem.
Segundo o mesmo testemunho, todos os reféns estavam preparados para morrer, sobretudo no segundo e no terceiro dia, porque os sequestradores diziam que ninguém entraria na escola e que ninguém, de fora, "queria mandar (para dentro) água e comida".
"Por cima de nós, no tecto, eles colocaram uma bomba com fita colante. Antes do assalto, os bandidos começaram a brigar entre si. Eu vivi algum tempo na Tchetchénia e entendo a fala deles, mas lá ninguém falou o tchetcheno, conversaram numa língua estranha que parecia o árabe e também no idioma inguche", recordou Marat Khamaev, um rapaz de 15 anos.
"Quando o assalto começou - contou -, um dos sequestradores gritou: +Eu salvo-vos!+ Todos correram para o pé dele e naquele momento ele fez explodir uma bomba que trazia e muita gente morreu".
EMO.
Lusa/Fim
Publicado por whiteball em setembro 8, 2004 03:54 PM