fevereiro 04, 2005

Afinal sócrates sempre ganhou

Excelente texto publicado na Visão - online.
Sócrates ganha sem dúvida

Sócrates 5, Santana 3
Nas alegações finais do debate desta quinta-feira, 3 de Fevereiro, definiram-se duas personalidades totalmente diferentes. E que diferentes que eles são, José Sócrates e Pedro Santana Lopes! Quem disse que um era a cópia do outro? As alegações finais são, pois, a chave do debate. Pedro esteve melhor, naqueles três minutos. Mas a sua foi, então, uma vitória de Pirro. A tirada de Martin Luther King («eu tenho um sonho»/[I have a dream]), enxertada a despropósito, deu-lhe o tom final de demagogia a que Pedro não resiste. Nessa frase e nesses três minutos (que aliás ganhou, sem ganhar o debate) revelou toda a plasticidade de um convincente vendedor de feira. Disse tudo o que tinha a dizer, num «improviso» bem decorado – mas, ganhando, perdeu. Porque esse terminus de debate foi tão ensaiado, tão preparado, tão «picareta falante» que, sendo quase celestial, como música de violinos, soou a falso, como se estivesse a fazer karaoke. E isso notou-se.

Nas alegações finais, José Sócrates foi um homem cansado. Ele, que começou o debate tenso e o acabou solto (ao contrário de Pedro que começou solto e acabou tenso...) voltou à rigidez do início. Frouxo, sem golpe de asa e, sobretudo, sem afectividade. Estaria a ler o teleponto ? Mas vamos aos temas.
CAMPANHA SUJA
Um a zero a favor de José. Só podia ganhar. Pedro contorceu-se, procurou escapar, com a agilidade de um rato do campo. Mas o gato José estava lá, implacável. A campanha dos boatos e das insinuações – o truque do cartaz da JSD que o líder socialista trouxe para a mesa – foi o primeiro momento alto e Pedro perdeu por KO. O epíteto de «cobarde», que José usou, parecia aplicar-se-lhe como uma luva.
IMPOSTOS
Empate. Ambos explicaram sofrivelmente os seus projectos, ambos se revelaram firmes na sua intenção de não aumentar nem baixar os impostos. A história do choque fiscal, e do seu incumprimento por parte do PSD, que José trouxe à liça, não lhe aproveitou em muito, devido aos telhados de vidro dos governos PS.
PENSÕES E POBREZA
Dois a zero a favor de José. Por esta altura do debate, mais do que a argumentação, estava-se perante a surpresa. Pedro Santana Lopes, com muito mais horas de televisão, igual a si próprio, já não tem a capacidade de surpreender. José Sócrates, uma semi-novidade depois dos domingos de debate com o seu adversário de ontem, tinha consigo as maiores expectativas. A sua convicção e a sua imagem prendiam mais a atenção. Tinha mais efeito televisivo. Começou a soltar-se e a irritar o adversário. «Nenhum socialista pode ficar indiferente à pobreza», disse, arrojadamente, com o qb da demagógica e tantas vezes irritante «superioridade moral» da esquerda. Curiosamente, funcionou. O Bloco de Esquerda perdeu votos. A oposição interna, que votou Manuel Alegre, aplaudiu. O país católico e piedoso sentiu um nó na garganta. O lampejo percorreu a espinha de todos os públicos.
AUMENTOS E ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Dois a um. José meteu os pés pelas mãos com a ideia (sem explicação cabal) de admitir um funcionário público por cada dois que se reformem. Pedro tirou da cartola o parco número de greves durante o consulado PSD, algo demagogicamente (esqueceu-se de que houve uma greve geral, bastante bem sucedida), mas explicou globalmente melhor o seu projecto. Em matéria de despesa, o PS não está à vontade. Aliás, continua a não estar, e isso é preocupante. A vitória de Pedro, neste capítulo, quase merecia não um, mas dois pontos...
IDADE DA REFORMA
Empate. Ou antes, ambos perderam. Nenhum se explicou bem, embora Pedro tivesse sido mais claro. No entanto, a ideia que perpassou, é que ambos estão muito mal preparados para lidar com o tema. Ou têm medo de anunciar que «vem aí a peste».
DESEMPREGO
Três a um a favor de José. Habilidoso, mas com a lição mal estudada, Pedro foi batido aos pontos. José explicou razoavelmente bem o objectivo dos 150 mil postos de trabalho que pretende recuperar. Esteve ao ataque (como quase sempre) e ganhou. Principalmente quando Pedro argumentou, manipulando números, que a taxa de desemprego durante o consulado PS foi maior. Achará que as pessoas já não se lembram da verdade?...
CO-ICINERAÇÃO
Quatro a um a favor de José. Muito firme, muito determinado, muito objectivo, peixe na água. Sem medo de perder votos em Coimbra, como se desejasse levar ali a bofetada que Mário Soares levou na Marinha Grande em 1985.
VALORES E REFERENDOS
Cinco a um a favor de José. Quando parecia que estavam empatados, José disparou a ideia que todos os telespectadores tinham, nesse preciso momento, na cabeça: «Os temas da homossexualidade, eutanásia, clonagem, etc. são muito interessantes mas estão a milhas das principais preocupações dos portugueses. O que interessa é o bolso de cada um». Este pragmatismo, muito à Sócrates, estilhaçou o mundo da lua, muito à Santana.
OBJECTIVO ELEITORAL
Cinco a dois. José perde por KO. Depois de pedir todos os dias a maioria absoluta, vem dizer que vitória é ficar em primeiro lugar, mesmo que seja com mais um voto do que o segundo. Não disse assim, mas foi o que quis dizer. E Pedro trouxe à colação as alianças e acordos pós-eleitorais. Sem obter resposta...
DECLARAÇÃO FINAL
Cinco a três. Remete-se, aqui, para o que fica dito no princípio. José tinha ganho o debate e travou na recta final, como um atleta da maratona que já não tem ninguém atrás. Pedro sprintou para um discurso empolgante e inspirado. De nada lhe terá valido.

Publicado por mocho em fevereiro 4, 2005 08:05 PM
Comentários

O texto até pode ser bom, mas espalha-se no final.
Dizer que Santana foi muito melhor nas alegações finais é um pouco forçado para não dizer absolutamente forçado.

Um tipo que debita palavras À velocidade luz e trava sem ABS para dizer: "eu tenho um sonho", jamais pode ganhar qualquer alegação final!

Afixado por: cachucho em fevereiro 4, 2005 09:06 PM