setembro 06, 2005

Uns contra os outros

Recebi este mail através de uma lista. A mensagem parece-me suficientemente importante para ser divulgada:
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Vim para Viseu há cerca de uma dúzia de anos, mas a minha terra natal fica lá na Beira Baixa, Pampilhosa da Serra. Costumava dizer, em jeito de brincadeira que a minha Pampilhosa não é aquela do comboio, mas antes a dos incêndios. Pois, quase todos os verões as referências nos mass media àquela vila são devidas aos fogos florestais.
Tristemente, este ano tudo se volta a repetir. Contudo, os fogos deste ano conseguiram suplantar todas as previsões. Ao som medonho das línguas de fogo juntou-se o som medonho da revolta dos populares. Esta revolta não se prende apenas com a perda - ainda que minimizada por muitos - do sustento agrícola e florestal, mas com a incapacidade e inoperância daqueles que se intitulam de coordenadores, líderes.
Infelizmente, e como já referi, as pessoas daquelas localidades já conhecem as manhas do fogo, já o sabem interpretar, pois já convivem com esta realidade há muito tempo. O corpo de bombeiros é composto pelas gentes da terra, são os Bombeiros Voluntários de Pampilhosa da Serra. Homens e mulheres de garra, prontos a partir assim que ouvem o grito agonizante da sirene, largam empregos e famílias, porque é uma honra pertencer àquele grupo, porque é um dever impregnado nos seus hábitos.
Assim sendo, é vergonhoso não se ter permitido a estes homens - que tão bem conhecem este concelho - indicar o caminho para chegar lá naquela hora. Lá é o ponto onde é acessível e possível controlar as chamas, a hora é aquele momento antes das chamas crescerem ao ponto de não se saber onde é que elas vão parar na imensidão do céu.
Quando o fogo era passível de ser controlado, nada foi feito para o travar. Quando o fogo tomava proporções descontroladas, era então o corrupio de carros de comando para cima e para baixo, sem que ninguém verdadeiramente soubesse avaliar a situação. Uns contra os outros. Quem conhecia o terreno e indicava os caminhos existentes ou estratégias óbvias era visto como um louco, mais um a mandar "papaias" no trabalho dos outros. Os "outros" estavam bem instalados com o seu ar condicionado e as suas novas tecnologias e as suas ideias de coordenação que não têm aplicação no nosso país porque nunca foram testadas, avaliadas, corrigidas. Enfim, aquilo que as teorias aconselham fazer para que na prática o projecto possa ser bem sucedido.
A realidade daqueles dias em Pampilhosa da Serra mostrou a falta de preparação teórica e prática. E pior ainda, mostrou a falta de humildade e de capacidade de dar a volta por cima. Senão, vejamos aos exemplos: os tanques andavam perdidos à procura de localidades das quais nem sabiam bem os nomes quanto mais a localização; os bombeiros exaustos dormiam agarrados às mangueiras porque ninguém no comando das operações se lembrou de os mandar revezar; o fogo extinguia-se por si próprio num lado da encosta enquanto que do outro lado se alastrava, os bombeiros eram posicionados no lado errado; os populares alertavam para os reacendimentos e quando a tropa chegava, passado algumas horas, já as chamas tinham um tamanho assustador e logo se batia em retirada; os bombeiros, quando questionados porque razão não combatiam o fogo, diziam que tinham recebido ordens de o fazer apenas quando este ameaçasse as casas (!); argumentava-se com a falta de acessos quando os populares com carrinhas usavam os acessos para retirar animais e apagar focos de incêndio.
Tudo isto que aqui relatei foi por mim presenciado, ninguém me contou. Vi as pessoas a ajudarem-se para protegerem os bens umas da outras, a organizarem linhas de água, a limpar em redor das casas, a fazerem vigília enquanto se revezavam para um pouco de descanso, a consolarem-se e a encorajarem-se. Vi, na escuridão da noite e sob a protecção do Cristo-Rei, o cerco cor de laranja que sitiava a vila, o fumo avassalador que tanto me irritava os olhos e a garganta, o calor abrasador que me trazia uma angústia tão forte que de repente me fez juntar às vozes de revolta. Porque razão tantos meios e tantos homens vindos de muitos pontos do país não foram capazes de fazer com que quase 37 mil hectares dos 39 que compõem o concelho da Pampilhosa da Serra fossem consumidos pelo fogo?
À memória do Paulo da Piedade,
Bombeiro Voluntário de Pampilhosa da Serra

Publicado por mocho em setembro 6, 2005 09:07 PM
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